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Revista Aplauso

AMÉRICA DE PONTA A PONTA

Olinda Allessandrini reata um elo perdido entre as músicas de Scott Joplin e Ernesto Nazareth

por FÁBIO PRIKLADNICKI - 10 DE DEZEMBRO, 2004

A pianista Olinda Allessandrini não é lá muito dada a profecias, mas a cada disco aparece com uma revelação. No ano passado, mostrou o que há em comum entre o pampa brasileiro, argentino e uruguaio, reunindo músicas de compositores eruditos das três nacionalidades no disco PamPiano . Agora, em Ébano e Marfim , seu sétimo CD de música para piano solo, ela reata outras pontas musicais e geográficas: é a vez de revelar o que têm a ver os compositores Scott Joplin (1868-1917), norte-americano, e Ernesto Nazareth (1863-1934), brasileiro.

Quem prestou atenção nas datas entre parênteses acima já percebeu que as duas figuras viveram na mesmíssima época. Além disso, ambos tiveram papel preponderante no desenvolvimento das culturas nacionais de seus países, transformando-se em pontes autorais entre música erudita e popular. Joplin é um dos nomes mais importantes do ragtime, gênero que desembocaria no jazz. Nazareth, por sua vez, foi praticante da polca, do maxixe e da valsa, entre outros, sedimentando o choro como gênero nacional e abrindo caminho para aquele outro tipo de choro, mais solto e matreiro, como o de Pixinguinha.

A aproximação entre Joplin e Nazareth não é de hoje: ambos são considerados espécie de “almas gêmeas” musicais na América (respectivamente do norte e do sul). Mas Olinda foi fundo na idéia, intercalando no disco composições de ambos, a ponto de o ouvinte poder se confundir com as semelhanças. E era mesmo essa a idéia.

A pianista conta que, ao contrário de outros músicos do continente americano na época, que se aperfeiçoavam na Europa, sofrendo influência do romantismo e deixando de valorizar as manifestações de seus países, Joplin e Nazareth pegaram o melhor dos dois mundos. Cada um a seu modo, claro. “Eles absorveram ritmos e danças rituais dos africanos – Joplin, na Louisiana, e Nazareth, no Rio de Janeiro. A simbiose entre as duas culturas, européia e afro, marcou a música de ambos”, afirma Olinda.

Ao contrário do disco anterior, planejado e realizado “em pouquíssimo tempo”, Ébano e Marfim é um projeto de longa data: ficou 11 anos na cabeça da intérprete. O motivo da demora? “Foi um projeto de muito amadurecimento. Fiz uma pesquisa cuidadosa das obras a serem gravadas e procurei as semelhanças do ponto de vista musical, nem sempre muito claras para o ouvinte”, diz. “A própria definição da seqüência das faixas foi muito planejada.” –>

O disco abre com Maple Leaf Rag , de Joplin, seguida de Odeon , talvez a mais conhecida de Nazareth. E assim se sucedem, intercaladas, as músicas de cada autor, em um diálogo cuidadosamente equilibrado. Se Odeon , de 1910, é como um cavalo-de-batalha na obra de Nazareth (há poucos anos foi tema da novela global O Cravo e a Rosa ), da parte de Joplin o ouvinte vai reconhecer The Entertainer , de 1902, que aparece no filmeGolpe de Mestre (1973), de George Roy Hill, com Paul Newman e Robert Redford.

Nas 18 faixas do disco, a atmosfera entre o erudito e o popular cai como uma luva para a pianista, que tem em sua carreira um histórico de desafio aos limites entre os dois pólos, sem preconceito. “Hoje em dia, o intérprete precisa de uma versatilidade que crie uma empatia com o seu público”, afirma. “O importante é apresentar música de qualidade, seja ela contemporânea, renascentista ou de caráter nacionalista.” Olinda, por sinal, já está bolando outros dois discos. Mas, sobre essas novas revelações, ela impõe a mesma discrição bem-humorada que mantém com relação à sua idade: não revela “nem com palitinho embaixo da unha”.

 
Comentários

…demonstra ser intérprete de decidida expressão, admirável vigor, e uma detalhada e fértil articulação musical.

Barbara Kaempfert-Weitbrecht, Jornal General Anzeiger, Alemanha.